
Mater dolorosa
Estendido, pálido, no caixão barato,
segue em frente, cercado de cravos,
o menino que brincando distraído
interrompeu o traçado de uma bala.
O cortejo fúnebre atravessa o bairro
ostentando a dor da mulher anônima,
que conduz febril aquele corpo leve
com o peso da revolta sobre os ombros.
Nunca mais cantigas de ninar,
nunca mais os gritos de alegria,
nunca mais presentes,
nunca mais castigos,
nunca mais o riso.
É tarde, acabou a brincadeira.
Seus amigos voltaram para casa
e no colo das mães já têm abrigo.
Vai, meu pequeno, não sinta medo
mesmo que se apague a luz do dia.
Se aconchegue no berço do infinito,
entregue ao nada sua pouca vida.
Qual Deméter, mãe desesperada,
maldizendo a terra que ocultou Perséfone,
brada a mulher contra a vida ingrata
que não lhe traria a cor na primavera.
Maldita a cidade de ruas incertas
e de praças à mercê de bandidos
que sem dó enterra a minha alma
com esse homem nunca crescido!
Maldito o ventre que deu à cidade
esse fruto para sempre imaturo!
Por que o gerou quando não podia
sequer lhe dar um lugar seguro?
Não há caminho de volta,
não há fuga, nem refúgio,
só noite e noite,
sol negro, estrelas mortas
e sombras.
a expor o calvário de um povo,
coração dilacerado por espadas
forjadas no descaso, no abandono!
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Ouça a música cujo clima me inspirou este poema:
Strange Fruit, de Lewis Allen (Abel Meeropol),
na interpretação de Nina Simone.
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